​Ninguém sabe de mim

Mais do que por outra razão qualquer, sentei-me e decidi começar a escrever porque tinha o caderno perto da cadeira. Andei alguns minutos à procura de uma caneta, o que para ser sincero quase deitou as minhas intenções por terra. Normalmente a esta hora estaria vidrado no Legends Forever, um jogo de computador online que por hábito me ocupa mais de quatro horas por dia. Dia real, no jogo passam mais uns quantos. É dificil largar o mundo dos dragões e das fadas, das derrotas e das vitórias, do sangue e do mérito, dos troféus e dos que me invejam, das cavernas que se apresentam perante a minha personagem, com entradas grotescas que me desafiam a lutar por histórias épicas. Comecei a jogar há coisa de três anos. Ainda me lembro bem, embora agora me faça rir pensar nesse meu tempo. Meu não, do Zack. Chama-se Zack. A minha personagem é um guerreiro robusto que usa escudos e machados afiados, alguns com um cabo maior do que poderia ser segurado por alguém no mundo real. Mesmo um daqueles gigantes dos concursos, os que se agacham para agarrar em grandes esferas de metal, ou se babam a empurrar carros como no tempo dos antigos, com cavalos e merda espalhada pelas ruas. Não que o jogo não seja mundo real, porque se não fosse, como poderia eu estar sequer a contar isto.

Hoje não posso jogar, a minha mãe teve a infeliz ideia de chamar cá o homem da eletricidade e parece que vamos estar sem eletricidade a tarde praticamente toda. Para piorar as coisas ele têm ar daqueles que contam histórias sobre quando começaram a trabalhar aos 8 anos, acordam às quatro da manhã há 50 anos, e a tarde rende até às oito e meia da noite. Com alguém a calcular tanto de tarde, bem que me vou ter de agarrar a esta caneta. Ainda cheguei a olhar pela janela do meu quarto, mas não parece haver nada de muito interessante na rua. Senti-me meio ridiculo a olhar pela janela, nunca há nada de minimamente interessante a acontecer mas achei que poderia estar a acontecer um qualquer milagre. Imaginem uma turista perdida numa rua de classe média dos subúrbios,só à procura de informações de um jovem na casa dos 20, se possível com uns olhos acastanhados, grandes e redondos, o cabelo apanhado atrás em duas tranças simétricas, vestida como a Deusa Seyva do Legends Forever. Tenho de parar, eu tenho namorada. O Zack tem namorada, ou pelo menos aqui entre nós diria que a coisa está bem encaminhada. Tenho passado algum tempo com ela. É dificil tomar nota do tempo mas nas últimas duas semanas passamos dois ou três dias seguidos. Juntos. Cruzamos estradas bordejadsa de bétulas e fetos bravos, dava-me conforto poder olhar para ela num cenário tão composto. Houve alturas em que apenas os troncos de cal e a lua nos iluminavam. Não me lembro sequer de ouvir o casco dos cavalos, mas diria que andamos a bom trote. Decidimos acampar depois de não haver taverna para pernoitar. Estávamos cansados depois de uma investida a um acampamento de pequenos goblins que acabour por se revelar fácil, mesmo com a surpresa do Orc feioso que apareceu do lado direito da tenda e se atirou a ela. Não chegou sequer a fazer a mínima moça. Combínavamos bem os dois. Tinha-a conhecido numa taverna perto da cidade de Wark, umas das principais do reino. Enquanto via o tempo passar, tinham-me dito que um dos melhores alfaiates da cidade ia estar por ali, e eu precisava de uma fatiota nova, deixei-me perto do balcão a beber um copo. Era uma druída de cabelo branco que se tinha sentado no meio da taverna. A taverna não tinha grande interesse até ela ter entrado, meia duzía de mesas espalhadas mais ou menos à sorte, um balcão corrido que fazia esquina, e duas empregadas bonitas para a idade. Tudo encapuçado com um lustre demasiado volumoso para a esquadria do local. De alguma forma aquilo impressiou-me, na altura o estabelecimento estava longe de estar cheio, lembro-me de dois ou três grupos de viajantes com os quais ainda cheguei a trocar algumas palavras. Ela decidiu sentar-se exactamente na mesa vazia do meio da taberna. Iluminada, ali, rodeada de todo e qualquer lado. Completamente indefesa. Já não era o Zack andrajoso que tinha começado na praça principal, descabelado e com uns farrapos nos pés. Estava na altura de investir em mim, para além da minha armadura e equipamento de combate. Eu podia ser um grande guerreiro mas mostrar-me como mereço, nem que fosse apenas nos eventos na capital. Mas um homem com um traje à altura arranja sempre momentos para se vestir bem.